Depende das provas. O banco do consumidor só responde se houver falha própria, como não acionar o MED ou permitir operação fora do padrão. Quem recebeu o dinheiro e quem participou da oferta podem ser chamados a responder. O TJCE, em caso de falso preparatório, isentou o banco e condenou a empresa dona da marca imitada, que não se defendeu no processo.
Como o golpe funciona
O golpe do curso falso explora a confiança em marcas conhecidas do mercado de cursos e infoprodutos. Perfis falsos em redes sociais, anúncios patrocinados e páginas que copiam o visual do curso verdadeiro oferecem descontos muito altos, quase sempre com urgência ('só hoje', 'últimas vagas'). O atendimento migra para o WhatsApp, e o pagamento é pedido por Pix 'copia e cola' para uma conta que não pertence ao curso.
Depois do pagamento, o acesso não chega, o número é bloqueado e o perfil desaparece. Diferentemente da compra em plataforma conhecida, aqui não há um fornecedor legítimo que se recusou a devolver: há um terceiro que se passou por ele.
- Desconto muito acima do normal, em data promocional.
- Pagamento só por Pix, nunca por cartão ou pela plataforma oficial.
- Recebedor com nome diferente do curso ou com nome de 'intermediadora'.
- Pressão para pagar em minutos.
- Contato apenas por WhatsApp, sem e-mail de confirmação da plataforma.
Quem responde pelo prejuízo
Responde, em primeiro lugar, quem recebeu os valores e participou da fraude. Se o recebedor for uma empresa identificável, como uma intermediadora ou uma conta de pessoa jurídica, ela pode ser chamada a devolver. Também pode ser discutida a responsabilidade de quem integra a oferta em que a fraude se apoiou. O CDC prevê a responsabilidade solidária de todos os que causaram o dano:
CDC, art. 7º, parágrafo único:
Parágrafo único. Tendo mais de um autor a ofensa, todos responderão solidariamente pela reparação dos danos previstos nas normas de consumo.
A 2ª Turma Recursal do TJCE julgou caso de falsa promoção de curso preparatório para a magistratura: o candidato viu a oferta em ambiente identificado com a marca de um curso conhecido e pagou R$ 297,90 via Pix Crédito a uma intermediadora. A empresa identificada no processo como responsável pela marca do curso foi citada e não se defendeu (revelia); como não provou que a promoção não era sua nem que adotou cuidados para impedir o uso fraudulento da sua oferta, foi condenada a ressarcir o valor, de forma simples, porque não recebeu o dinheiro. O Nubank foi isento: a operação foi feita pelo próprio consumidor, em aparelho autorizado, com senha e reconhecimento facial, e o MED foi iniciado no mesmo dia. Não houve dano moral.
TJCE, 2ª Turma Recursal, Recurso Inominado Cível nº 3001677-47.2025.8.06.0017, Juiz Flávio Luiz Peixoto Marques, julgado em 14/10/2026 parcialmente favorável
Candidato a concurso viu uma suposta promoção de 'Black Friday' em ambiente identificado com a marca de um curso preparatório conhecido, foi levado ao WhatsApp e pagou R$ 297,90 por Pix Crédito a uma intermediadora. A sentença julgou tudo improcedente. A Turma condenou a empresa responsável pela marca do curso, citada e revel, a ressarcir o valor de forma simples, porque não demonstrou que a promoção não lhe pertencia nem que adotou cuidados para impedir o uso fraudulento de sua oferta (não houve dobro porque ela não recebeu o dinheiro). Afastou a responsabilidade do Nubank: a operação foi feita pelo próprio consumidor, com senha e reconhecimento facial, e o MED foi iniciado no mesmo dia. Dano moral negado.
Tese: No golpe do falso curso, o banco só responde se houver falha própria; a empresa dona da oferta imitada pode responder pelo dano material quando, revel, não afasta a ligação da fraude com o seu ambiente de venda.
Partes: Nu Pagamentos S.A. e Projeto X Cursos Preparatórios para Concursos Ltda. (identificada no acórdão como responsável pela marca do curso imitado); a intermediadora que recebeu o Pix foi excluída do processo por desistência do autor.
Inteiro teor: autdoc.tjce.jus.br
Esse resultado dependeu da revelia: sem defesa, os fatos verossímeis narrados pelo consumidor e apoiados em documentos foram presumidos verdadeiros. Se a empresa dona da marca provar que a página não era sua e que agiu para coibir a fraude, a conclusão pode ser outra. A discussão sobre a responsabilidade de quem permitiu o anúncio falso (rede social, plataforma de anúncios) é mais complexa e depende de regras próprias do Marco Civil da Internet; não há decisão localizada nesta pesquisa sobre curso falso nesse ponto.
O banco tem alguma responsabilidade?
O banco responde quando há falha do próprio serviço, nos termos do art. 14 do CDC: por exemplo, se o sistema permitiu transação totalmente fora do perfil sem nenhuma checagem, se não bloqueou a conta recebedora depois de avisado, ou se ignorou o pedido de devolução pelo MED. Quando o consumidor faz a operação com seus dados e o banco cumpre seus deveres, a tendência é afastar a responsabilidade, como no caso julgado no TJCE.
CDC, art. 14, § 3º:
§ 3° O fornecedor de serviços só não será responsabilizado quando provar: I - que, tendo prestado o serviço, o defeito inexiste; II - a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro.
O art. 14, § 3º, acima, mostra por que o banco costuma ser isento nesses casos: a culpa exclusiva de terceiro (o golpista) afasta a responsabilidade quando não há defeito no serviço bancário. Por isso, a rapidez em comunicar o banco é decisiva, tanto para tentar recuperar o valor quanto para, se o banco falhar a partir dali, abrir espaço para responsabilizá-lo.
O que fazer imediatamente
- Comunique o banco assim que perceber o golpe e peça o acionamento do MED do Pix.
- Registre boletim de ocorrência, de preferência pela delegacia eletrônica.
- Guarde prints do perfil, da página, das conversas e do comprovante do Pix com os dados do recebedor.
- Denuncie o perfil ou o anúncio na rede social.
- Avise o curso verdadeiro, que costuma ter interesse em derrubar a página falsa.
- Se o recebedor for identificável, avalie ação no Juizado contra ele.
O boletim de ocorrência e o pedido de MED são importantes não só para tentar recuperar o dinheiro, mas também para mostrar, num eventual processo, que você agiu com a diligência esperada. Se o banco, avisado, deixar de tomar as providências que lhe cabem, a discussão sobre a responsabilidade dele ganha outro peso.
Seja realista sobre as chances: quando o recebedor é uma conta de terceiro sem patrimônio, a recuperação é difícil mesmo com decisão favorável. A prevenção, comprando só pelos canais oficiais, ainda é a melhor proteção.
Perguntas frequentes
O curso verdadeiro tem que me devolver? Depende do caso. No julgado do TJCE, a empresa dona da marca imitada foi condenada a ressarcir o valor porque não se defendeu e não afastou a ligação da fraude com a sua oferta. Com defesa e prova de que a página era falsa e de que agiu para coibi-la, o resultado pode ser outro.
O banco é obrigado a devolver o Pix do golpe? Não automaticamente. O TJCE isentou o banco quando a operação foi feita pelo próprio consumidor, com senha e biometria, e o MED foi acionado.
O que é o MED? É o Mecanismo Especial de Devolução do Pix, que permite ao banco bloquear e tentar devolver valores enviados em fraude. Deve ser pedido o mais rápido possível.
Vale a pena processar? Vale avaliar quando o recebedor é identificável. Se for conta de terceiro sem patrimônio, a recuperação pode ser difícil mesmo com sentença favorável.
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Conteúdo de caráter meramente informativo, em conformidade com o Provimento nº 205/2021 da OAB. Não constitui oferta, promessa de resultado ou captação de clientela. Cada caso é analisado individualmente.
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