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Ação contra o condomínio no Juizado Especial Cível: quem processar, provas e limites

Lucas Monteiro de Araújo Magalhães

O Juizado Especial Cível julga causas de até quarenta salários mínimos e de menor complexidade, e é usado com frequência para anular multas, pedir indenização por infiltração, exposição ou perseguição e para conflitos de vizinhança. Causas que dependem de perícia complexa ou envolvem valores maiores vão para a Justiça comum.

Competência e limites do Juizado

A Lei 9.099/1995 define a competência pelo valor e pela complexidade:

Lei 9.099/1995, art. 3º, caput e inciso I:

Art. 3º O Juizado Especial Cível tem competência para conciliação, processo e julgamento das causas cíveis de menor complexidade, assim consideradas: I - as causas cujo valor não exceda a quarenta vezes o salário mínimo;

E dispensa advogado nas causas menores:

Lei 9.099/1995, art. 9º, caput:

Art. 9º Nas causas de valor até vinte salários mínimos, as partes comparecerão pessoalmente, podendo ser assistidas por advogado; nas de valor superior, a assistência é obrigatória.

A complexidade é o ponto que mais gera discussão nos conflitos condominiais. Infiltração com origem controvertida pode exigir perícia de engenharia, incompatível com o rito simplificado. Os tribunais cearenses, porém, têm rejeitado a preliminar de incompetência quando laudos particulares, fotos e mensagens bastam para julgar, como no caso da infiltração vinda da unidade superior:

TJCE, 4ª Turma Recursal, Recurso Inominado Cível nº 3000715-34.2023.8.06.0004, Juiz José Maria dos Santos Sales, julgado em 02/06/2025 favorável ao condômino

Infiltração persistente por quatro anos, vinda de vazamento no encanamento da unidade de cima. A Turma manteve a condenação da proprietária do apartamento superior a fazer os reparos em 30 dias, pagar R$ 490,00 de danos materiais e R$ 2.000,00 de danos morais. Rejeitou a tese de que seria necessária perícia, porque a prova documental bastou.

Tese: Comprovada a origem do vazamento na unidade superior e a inércia do proprietário, cabem reparo, danos materiais e morais, mesmo sem perícia no Juizado.

Partes: Moradora, proprietária da unidade superior e condomínio (nomes omitidos).

Inteiro teor: autdoc.tjce.jus.br

Também a 4ª Turma Recursal afastou a incompetência por necessidade de perícia em caso de vazamento de área comum:

TJCE, 4ª Turma Recursal, Recurso Inominado Cível nº 3000487-62.2024.8.06.0024, Juíza Márcia Oliveira Fernandes Menescal de Lima, julgado em 19/11/2025 favorável ao condômino

Vazamento originado em área comum alagou o apartamento e destruiu móveis. A Turma manteve a condenação do condomínio: a guarda e manutenção da área comum lhe cabiam, ele não provou culpa de terceiro nem medidas preventivas, orçamentos e fotos bastaram para os danos materiais e o alagamento ultrapassou o mero aborrecimento.

Tese: Vazamento vindo de área comum gera responsabilidade do condomínio por danos materiais e morais, sem necessidade de perícia quando a prova é suficiente.

Partes: Condomínio residencial e condômino(a) pessoa física (nomes omitidos).

Inteiro teor: autdoc.tjce.jus.br

Contra quem propor a ação

A escolha do réu é decisiva e varia conforme o problema:

  • Multa, assembleia, restrição de área comum, taxa: contra o condomínio, representado pelo síndico (art. 1.348, II).
  • Infiltração vinda de outra unidade: contra o proprietário (e, conforme o caso, o ocupante) da unidade de origem.
  • Infiltração de área comum: contra o condomínio.
  • Exposição ou ofensa pessoal: contra o condomínio e, quando o síndico age fora das atribuições, contra ele pessoalmente.
  • Dúvida sobre a origem do dano: incluir os possíveis responsáveis e deixar a prova definir.

A responsabilização pessoal do síndico foi admitida pelo TJCE em caso de exposição em grupo de mensagens:

TJCE, 2ª Turma Recursal, Recurso Inominado Cível nº 3000099-52.2025.8.06.0016, Juiz Roberto Viana Diniz de Freitas, julgado em 24/06/2026 favorável ao condômino

A síndica publicou no grupo de WhatsApp do prédio, com condôminos e inquilinos, mensagens com o nome do condômino, um suposto débito e imputações de irregularidades. A Turma manteve a condenação da síndica a pagar R$ 5.000,00 de dano moral, validou a ata notarial das mensagens e afirmou que a cobrança não autoriza exposição vexatória (art. 187 do Código Civil).

Tese: Cobrança condominial não autoriza expor o devedor em grupo de mensagens, e o síndico que o faz pode responder pessoalmente por dano moral.

Partes: Condômino e síndica (pessoas físicas, nomes omitidos).

Inteiro teor: autdoc.tjce.jus.br

Já em ações de prestação de contas, o condômino isolado tem sido considerado parte ilegítima, porque a obrigação é perante a assembleia, o que torna o Juizado (e a ação individual em geral) um caminho inadequado para esse tipo de pedido.

Provas que fazem diferença

No Juizado, a prova documental pesa muito, e a audiência costuma ser rápida. As provas mais úteis nos conflitos condominiais são:

  • Convenção, regimento e atas (pedidos por escrito à administração).
  • Notificações, multas e boletos.
  • Ata notarial de mensagens de grupos e redes sociais.
  • Fotos e vídeos com data, laudos técnicos e orçamentos.
  • Registros do livro de ocorrências e da portaria.
  • Testemunhas: vizinhos, porteiros, zeladores.

O TJCE validou a ata notarial de mensagens de WhatsApp como prova idônea, rejeitando a alegação de prova ilícita, porque as mensagens foram compartilhadas por participante do grupo. Já a falta de prova é a principal causa de derrota em pedidos de dano moral por perseguição:

TJCE, 6ª Turma Recursal Provisória, Recurso Inominado Cível nº 3000557-37.2023.8.06.0017, Juiz Saulo Belfort Simões, julgado em 22/04/2025 desfavorável ao condômino

O condômino alegou perseguição e constrangimento pelos representantes do condomínio. A Turma manteve a improcedência porque ele não provou os fatos constitutivos do direito (art. 373, I, do CPC).

Tese: Sem prova dos atos de perseguição, não há dano moral.

Partes: Condomínio residencial e condômino(a) pessoa física (nomes omitidos).

Ementa: autdoc.tjce.jus.br

O que esperar do processo

O rito começa com audiência de conciliação. Muitos conflitos de condomínio terminam ali, com cancelamento de multa, reparo de infiltração ou retratação. Não havendo acordo, segue-se a instrução e a sentença. Da sentença cabe recurso inominado à Turma Recursal, e quem recorre e perde paga custas e honorários.

Expectativa realista de indenização é importante. Os valores de dano moral reconhecidos nos precedentes citados nesta seção variam, em regra, de R$ 2.000,00 a R$ 5.000,00, e dependem das circunstâncias de cada caso; não há valor garantido. Pedidos de dano moral por simples cobrança indevida, sem exposição ou negativação, costumam ser negados.

Por fim, o próprio condomínio também usa o Juizado para cobrar cotas e executar títulos, e pode pedir a penhora do imóvel. Nessa posição, o condômino executado deve verificar prescrição, título e encargos, e lembrar que a penhora do bem de família é admitida por exceção legal, embora possa ser negada quando desproporcional.

Perguntas frequentes

Qual o valor máximo de uma ação no Juizado? Quarenta salários mínimos, pelo art. 3º, I, da Lei 9.099/1995. Até vinte salários mínimos, a parte pode comparecer sem advogado.

Posso processar o síndico pessoalmente? Sim, quando ele age com abuso, fora das atribuições do cargo. O TJCE condenou uma síndica por expor condômino em grupo de mensagens. Atos regulares de gestão são imputados ao condomínio.

Preciso de perícia para provar infiltração? Nem sempre. O TJCE dispensou perícia quando laudo particular, fotos e mensagens bastavam. Se a origem for controvertida e técnica, pode ser necessária a Justiça comum.

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Lucas Monteiro de Araújo Magalhães, OAB/CE 49.312. Escritório Lucas Monteiro, Fortaleza/CE, atendimento em todo o Brasil. Atualizado em 21/10/2026.

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