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Tratamento odontológico

Clínica odontológica fechou no meio do tratamento: o que fazer

Lucas Monteiro de Araújo Magalhães

Quando a clínica fecha as portas com tratamentos pagos e não concluídos, o paciente pode buscar a devolução dos valores e a reparação contra a empresa, a franqueadora da rede, o profissional responsável e, se houver financiamento vinculado, contra a financeira. Antes de processar, é essencial verificar se a pessoa jurídica ainda existe.

Primeiro passo: descobrir quem pode responder

Fechamentos repentinos de clínicas odontológicas não são raros. Em Belo Horizonte, a Assembleia Legislativa de Minas Gerais realizou audiência pública em maio de 2023 sobre o encerramento de uma rede que deixou pacientes com tratamentos pagos e consultas marcadas. O primeiro cuidado jurídico é identificar quem ainda pode ser cobrado.

O TJCE julgou, em 2025, uma ação proposta contra clínica cuja pessoa jurídica já havia sido extinta antes do ajuizamento. A sentença havia condenado as ex-sócias, mas o tribunal anulou o julgamento, extinguiu o processo quanto à empresa e determinou a citação regular da profissional que fez o tratamento. O processo seguiu, mas com anos perdidos.

TJCE, 6ª Câmara de Direito Privado, Apelação Cível nº 0131621-85.2017.8.06.0001, Rel. Jane Ruth Maia de Queiroga, julgado em 28/08/2025 parcialmente favorável

A ação foi proposta contra clínica cuja pessoa jurídica já havia sido extinta antes do ajuizamento. A sentença havia admitido a sucessão pelas ex-sócias e as condenado à revelia. A 6ª Câmara de Direito Privado extinguiu o processo quanto à empresa, anulou a sentença e determinou a citação regular da profissional responsável pelo tratamento, que segue como ré.

Tese: Clínica fechada e baixada não pode ser ré; a ação deve mirar quem pode responder, como o profissional que executou o tratamento.

Partes: PR Serviços Hospitalares e Odontológicos Ltda (empresa baixada).

Ementa: autdoc.tjce.jus.br

  • Consulte o CNPJ da clínica na Receita Federal para saber se está ativa, baixada ou inapta;
  • Verifique se a clínica era franqueada de uma rede e quem é a franqueadora;
  • Identifique o cirurgião-dentista responsável técnico e o que executou seu tratamento;
  • Veja se o pagamento foi feito por financiamento, carnê de financeira ou cartão oferecido na clínica.

Franqueadora e rede: quem empresta a marca responde

Quando a clínica fechada pertencia a uma rede de franquias, a franqueadora pode ser chamada a responder perante o paciente. O TJCE reconheceu em 2026 a responsabilidade objetiva da franqueadora de uma rede odontológica por tratamento de canal mal feito em unidade franqueada.

TJCE, 3ª Câmara de Direito Privado, Apelação Cível nº 0105625-22.2016.8.06.0001, Rel. Raimundo Nonato Silva Santos, julgado em 29/04/2026 favorável ao paciente

Tratamento endodôntico no dente 24, feito em clínica franqueada da rede Odonto Center em 2014, com excesso de material obturador e perda do dente. A 3ª Câmara de Direito Privado manteve a condenação da franqueadora, reconhecendo sua responsabilidade objetiva perante o consumidor. Embargos de declaração da franqueadora depois rejeitados.

Tese: A franqueadora da rede odontológica responde objetivamente perante o paciente pelo serviço prestado na unidade franqueada.

Partes: Odonto Center Franchising Ltda.

Ementa: autdoc.tjce.jus.br

A lógica é a da cadeia de fornecimento: todos os que participam da oferta do serviço ao consumidor respondem solidariamente, conforme o art. 7º, parágrafo único, do CDC. O TJCE também aplicou a teoria da aparência quando clínicas diferentes usavam a mesma identidade visual, de modo que o paciente não podia distinguir uma da outra.

CDC (Lei 8.078/1990), art. 7º, parágrafo único:

Parágrafo único. Tendo mais de um autor a ofensa, todos responderão solidariamente pela reparação dos danos previstos nas normas de consumo.

TJCE, 3ª Câmara de Direito Privado, Apelação Cível nº 0269172-34.2022.8.06.0001, Rel. Cleide Alves de Aguiar, julgado em 09/09/2026 favorável ao paciente

Prótese dentária defeituosa, com falha comprovada por perícia, paga com cartão de crédito oferecido dentro da clínica. A 3ª Câmara de Direito Privado manteve a anulação do contrato de cartão, a restituição e o dano moral de R$ 5.000,00, reconhecendo teoria da aparência (identidade visual comum entre clínicas), venda casada e integração da administradora à cadeia de fornecimento.

Tese: O cartão ou crédito oferecido dentro da clínica integra a cadeia de fornecimento: a administradora responde junto pela falha do tratamento.

Partes: Clínica Dentária Fortaleza Ltda, Credz Administradora de Cartões S/A e DM Financeira S/A.

Ementa: autdoc.tjce.jus.br

O financiamento continua sendo cobrado?

Se o tratamento foi pago por financiamento ou crédito oferecido dentro da clínica, o contrato de crédito é, em regra, coligado ao de prestação de serviço. Desde 2021, o art. 54-F do CDC permite que, havendo inexecução pelo fornecedor, o consumidor peça a rescisão também contra o fornecedor do crédito.

CDC (Lei 8.078/1990), art. 54-F, caput, I e II:

Art. 54-F. São conexos, coligados ou interdependentes, entre outros, o contrato principal de fornecimento de produto ou serviço e os contratos acessórios de crédito que lhe garantam o financiamento quando o fornecedor de crédito: I - recorrer aos serviços do fornecedor de produto ou serviço para a preparação ou a conclusão do contrato de crédito; II - oferecer o crédito no local da atividade empresarial do fornecedor de produto ou serviço financiado ou onde o contrato principal for celebrado.

CDC (Lei 8.078/1990), art. 54-F, § 2º:

§ 2º Nos casos dos incisos I e II do caput deste artigo, se houver inexecução de qualquer das obrigações e deveres do fornecedor de produto ou serviço, o consumidor poderá requerer a rescisão do contrato não cumprido contra o fornecedor do crédito.

Isso é especialmente relevante quando a clínica fecha: as parcelas continuam chegando, mas o serviço não será prestado. O TJCE já anulou contratos coligados de tratamento e financiamento e reconheceu dano moral por negativação indevida.

TJCE, 1ª Câmara de Direito Privado, Apelação Cível nº 3002971-69.2025.8.06.0071, Rel. Carlos Augusto Gomes Correia, julgado em 23/07/2026 favorável ao paciente

Contrato de serviços odontológicos com financiamento bancário vinculado, assinado eletronicamente sem informação adequada ao consumidor. A 1ª Câmara de Direito Privado manteve a nulidade dos contratos coligados, a declaração de inexistência do débito e o dano moral pela inscrição indevida em cadastro de inadimplentes, destacando que a prova da autoria da assinatura eletrônica não basta para validar a contratação.

Tese: Financiamento do tratamento contratado sem informação clara é coligado ao serviço e pode ser anulado junto com ele.

Partes: Serviextra Odonto Ltda e Banco Votorantim S.A..

Ementa: autdoc.tjce.jus.br

Prazos e medidas imediatas

O paciente deve agir rápido: registrar reclamação no Procon e no consumidor.gov.br, guardar contratos e comprovantes, pedir por escrito o prontuário e as radiografias e procurar avaliação de outro dentista para documentar o estado em que o tratamento parou. Se houver financiamento, convém comunicar a financeira formalmente sobre a inexecução do serviço.

O prazo para pedir reparação por danos decorrentes do serviço defeituoso é de cinco anos (CDC, art. 27). Para reclamar apenas do vício do serviço não concluído, prazos menores podem ser invocados pela defesa, o que reforça a importância da reclamação formal e documentada.

CDC (Lei 8.078/1990), art. 27:

Art. 27. Prescreve em cinco anos a pretensão à reparação pelos danos causados por fato do produto ou do serviço prevista na Seção II deste Capítulo, iniciando-se a contagem do prazo a partir do conhecimento do dano e de sua autoria.

Perguntas frequentes

A clínica fechou e o CNPJ foi baixado. Ainda posso cobrar? Contra a empresa extinta, o processo encontra obstáculo. Mas é possível avaliar a responsabilidade da franqueadora, do profissional que executou o tratamento, da financeira coligada e, em situações específicas, dos sócios.

Tenho que continuar pagando o carnê do tratamento? Se o crédito foi oferecido pela clínica ou dentro dela, ele é, em regra, coligado ao serviço. A inexecução permite pedir a rescisão também contra a financeira, mas isso deve ser feito formalmente, e de preferência com orientação, para evitar negativação.

Vale registrar boletim de ocorrência? Em fechamentos repentinos com muitos pacientes lesados, o boletim ajuda a documentar o fato. A reparação civil, porém, depende de ação própria.

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Conteúdo de caráter meramente informativo, em conformidade com o Provimento nº 205/2021 da OAB. Não constitui oferta, promessa de resultado ou captação de clientela. Cada caso é analisado individualmente.

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Lucas Monteiro de Araújo Magalhães, OAB/CE 49.312. Escritório Lucas Monteiro, Fortaleza/CE, atendimento em todo o Brasil. Atualizado em 21/10/2026.

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